O que é Terapia EMDR?

A terapia EMDR (Dessensibilização e reprocessamento por meio dos movimentos oculares) é uma abordagem terepêutica baseada em evidências científicas que demonstram sua eficácia na melhora de uma série de situações com base psicológica, tais como: ansiedade, problemas sexuais, transtornos de estresse pós-traumático, dificuldades de relacionamento e melhora de performance/desempenho.

Costuma ser uma terapia de menor duração podendo ser utilizada no trabalho clínico com crianças, adolescentes e adultos.

Essa forma de terapia tem algumas características que, inicialmente, podem parecer estranhas: em algum momento do tratamento, o/a paciente acompanha com os olhos, indo de uma lado para o outro, os movimentos que o/a terapeuta faz no ar com os dedos em direções opostas.

Ao mesmo tempo, o paciente focará em uma memória traumática predeterminada, além de observar suas sensações corporais ligadas ao registro negativo. A estimulação bilateral (assim chamada por ser feita dos dois lados do corpo) também pode ser tátil (leve toque nos joelhos, por exemplo) ou sonora.

Essa estimulação bilateral permite ao/à cliente reprocessar memórias traumáticas passadas e ter uma nova forma de viver/experimentar o mundo no presente e no futuro com significativa diminuição de sofrimento e melhora na qualidade de vida.

A utilização da estimulação bilateral favorece ao paciente permanecer focado no momento presente, enquanto revisita memórias traumáticas que podem ser muito dolorosas. Ao mesmo tempo, de acordo com hipóteses neurobiológicas, estimula os dois hemisférios cerebrais, permitindo a devida reintegração e comunicação de redes de memórias entre ambos os hemiférios.

Os estudos em neurociência têm avançado muito muito na compreensão do que acontece no cérebro durante e após a terapia EMDR para a mesma apresentar tantos resultados positivos.

É importante ressaltar que a terapia EMDR não se restringe à estimulação bilateral, sendo uma terapia completa, no sentido mais amplo da palavra, com começo, meio e fim, respeitando as características de cada pessoa e levando em conta sua história de vida, singularidades e recursos psicológicos, familiares e sociais disponiveis.

Mas, como assim? Como essa terapia funciona?

A ideia básica dessa forma de terapia é a seguinte: algumas vezes, em nossas vidas, acontecem coisas que não temos recursos psicológicos suficientes para lidar (traumas). Essa falta de recursos psicológicos pode ser por diversos motivos:

1) Porque éramos muito jovens (crianças/adolescentes, principalmente) e ainda não havíamos construído recursos para lidar com adversidades.

2) Porque não estávamos em condições de conseguir processar os eventos que aconteceram (como quando se está sob efeito de álcool ou outras drogas ou em situações delicadas, como durante o ato sexual ou em ambientes desconhecidos e sem rede de apoio).

3) Porque o evento tinha uma força muito grande ou aconteceu de forma muito inesperada, como em casos de assaltos muito violentos, sequestros e perdas significativas (mortes, términos abruptos de relacionamento, etc.).

Dessa forma, podem surgir memórias ligadas à esses eventos que não foram processadas devidamente. Elas ficam isoladas e não conseguem se juntar ao restante das nossas memórias de forma adequada ou “adaptativa”. É como se estivessem congeladas, em nossos cérebros, em uma forma bruta.

Usando uma metáfora, poderíamos pensar na memória traumática como se ela estivesse em uma caixa ou cápsula separada das memórias que foram bem processadas. O problema é que, mesmo sem a gente ter consciência disso, essas memórias “encapsuladas” atrapalham nosso funcionamento psicológico, podendo causar sofrimento no presente, como ansiedade, baixa autoestima, problemas em relacionamentos (por exemplo, dificuldade para se vincular), problemas sexuais ou atrapalhar nosso desempenho (no trabalho, nos estudos, nas atividades físicas).

Na terapia EMDR, esses conteúdos das “capsulas” serão reprocessados e reintegrados às outras memórias. No ambiente seguro da terapia e com um/a profissional capacitado/a, o/a paciente terá uma nova chance de processar de forma mais saudável memórias traumáticas. Após o reprocessamento, lembrar não será doloroso como era e eventos, antes traumáticos, poderão deixar de travar a vida presente e futura do cliente.

Muita gente pode pensar “mas eu nem sofro por conta do passado e nem acho que tenha trauma”. No entanto, essas “capsulas” não precisam ser conscientes, na verdade, é comum que não sejam.

Ainda pode acontecer de a pessoa acreditar que o evento passado (ou seu registro na memória) é, hoje, irrelevante, logo, não lhe causaria maiores transtornos. No entanto, quando se toca no tema em terapia, pode se descobrir que a memória ligada a certos eventos está carregada emocionalmente e ainda tem efeito no momento presente por não ter sido devidamente processada quando aconteceu. Não é incomum que, durante o reprocessamento, memórias esquecidas, porém, com reflexos negativos no presente, venham à tona, podendo ser trabalhadas.

Dessa forma, uma importante tarefa da terapia EMDR é encontrar as conexões entre os sofrimentos atuais e as memórias não devidamente processadas e, após, reprocessá-las. Tendo a memória causadora das dificuldades sido processada, os sofrimentos trazidos para a terapia podem ser eliminados ou significativamente diminuídos.

Como surgiu a terapia EMDR?

Dr. Francine Shapiro (1948/2019), criadora da terapia EMDR, foi uma psicóloga estadunidense e contava que um dia, em 1987, estava caminhando em um parque pensando em algumas coisas que a perturbavam. Assim como em muitas outras descobertas científicas feitas por acaso, ela notou que, ao fazer movimentos com seus olhos, sua angústia diminuía.

Intrigada, começou a pesquisar e fazer experimentos sobre o tema, descobrindo que os movimentos oculares isolados não causavam ganhos terapêuticos completos. Dessa forma, a psicóloga inseriu outros elementos em sua abordagem de terapia, incluindo elementos cognitivos, como a investigação das crenças negativas ligadas às memórias que temos sobre certos acontecimentos de nossas vidas.

Shapiro empreendeu os primeiros experimentos para verificar a eficácia da nova forma de terapia. Ela observou, logo de início, que sujeitos sofrendo de memórias traumáticas submetidos à terapia com movimentos oculares apresentavam resultados melhores que aqueles que apenas faziam visualizações e descrição de imagens traumáticas. Isso era apenas o início dos diversos estudos comprovando a eficácia e viabilidade dessa terapia.

Com base em diversos estudos de outros pesquisadores, feedbacks de pacientes e experiência no emprego da terapia, Shapiro desenvolveu um protocolo completo (que tem oito fases) para aplicar a nova forma de psicoterapia.

Em 1991, a terapia, que antes se chamava apenas EMD (Movimento ocular e dessensibilização) foi rebatizada por Francine como EMDR (Movimento ocular, dessensibilização e reprocessamento ou Dessensibilização e reprocessamento por meio dos movimentos oculares) para ressaltar os aspectos cognitivos envolvidos na terapia e identificar a explicação que a psicóloga/pesquisadora dava para o funcionamento da mesma, com base em sua teoria sobre o processamento da informação. (para saber mais sobre essa teoria, clique aqui, em inglês)

Diversos estudos independentes sobre essa forma de terapia começaram a ser realizados desde 1989 com resultados muito promissores, principalmente em casos de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, uma condição na qual um evento traumático passado desencadeia uma série de reações no presente trazendo enorme sofrimento às pessoas que padecem dessa condição.

Dessa forma, essa psicoterapia começou a ser muito utilizada nos veteranos de guerra. Essas pessoas, traumatizadas com bombas, mortes e ataques aéros, quando voltavam para a casa, podiam ter uma reação emocional extrema com um simples objeto caindo no chão ou uma porta batendo porque associavam o barulho com os eventos de guerra. Após o tratamento com EMDR, na maioria dos casos, essas relações eram rompidas, as memórias traumáticas reprocessadas e as pessoas podiam levar a vida de forma mais tranquila.

Se traumas de guerra podiam ser tratados com EMDR, será que traumas “civis”, do dia a dia, também não poderiam ser trabalhados com essa forma de terapia? Essa pergunta foi respondida por meio de vários estudos demonstrando a eficácia do EMDR para os mais diversos sofrimentos psicológicos. Em breve, veremos a diversidade de situações nas quais o EMDR pode ser aplicado, mas, antes, vamos entender um pouco o que significa trauma.

Trauma de T grande e trauma de T pequeno

Chamamos de trauma de T grande aqueles eventos agudos, repentinos e que são muito sofridos psicologicamente para a maioria das pessoas, como um sequestro, um assalto extremamente violento, presenciar um homícidio, ser vítima de abuso sexual, os horrores da guerra ou perder os pais na infância. Poucas pessoas discordariam que tais situações podem ser traumáticas. E o EMDR se mostra muito eficiente para lidar com elas.

No entanto, hoje sabemos que os traumas de T pequeno podem ser tão ou ainda mais danosos que os traumas de T grande. Os traumas de T pequeno, chamados de experiências adversas de vida, são situações que as pessoas passam e não têm recursos suficientes para lidar armazenando na memória de forma pouco adaptativa podendo gerar sofrimento por décadas ou durante toda a vida, sem terem a dimensão de um trauma de T grande. Muitas vezes são negligenciados e negados como elementos chave que causam sofrimento duradouro.

Se pensarmos em uma um continumm em que em um extremo estão os traumas de T grande (tragédias, violência extrema, abuso sexual, etc.) e, no outro, as dificuldades diárias comuns da vida que conseguimos lidar, os traumas de T pequeno estariam em uma posição intermediária, podendo ser muito danosos à saúde física e psicológica das pessoas.

Exemplos de trauma de T pequeno: falas recorrentes do pai ou da mãe diminuindo o/a filho/a “Você não consegue mesmo, é muito incompetente”, “Seu irmão é um exemplo! Já você…”, “Cala boca que criança não se mete em conversa de adulto”.

Podem ser eventos na escola, como ter passado algum grande constrangimento perante outros alunos ou ter sido ridicularizado por um professor ou professora. Podem ser traumas de T pequeno condições de grande pobreza, submetendo a pessoa a eventos diversos de humilhação e sofrimento, em uma fase da vida que existiam poucos recursos psicológicos para lidar com isso ou, ainda, o término de um relacionamento significativo.

Perceba que um trauma é trauma para a pessoa que viveu se ela não conseguiu processar de forma adequada. Então, algo pode ser traumático para uma pessoa e não para outra. Ou, ainda, um evento que era traumático no passado para alguém pode deixar de ser atualmente. Pense na criança, ainda sem muitos recursos psicológicos, que era ridicularizada na escola. Hoje, o adulto que aquela criança se tornou poderia não sofrer se ouvisse falas maldosas de mesmo teor, porém, na infância pode ter experimentado isso como trauma, porque ainda não tinha os recursos suficientes para lidar com a situação, e o evento precisa ser reprocessado no presente em terapia.

Tendo essas definições sobre traumas em vista, percebe-se que muitos sofrimentos que as pessoas trazem até a clínica tem como base eventos negativos de vida, cujas memórias não foram devidamente processadas.

A terapia EMDR tem se mostrado extremamente eficiente em lidar com traumas, sejam eles de T grande ou de T pequeno, e suas consequências negativas. Vamos, então, ver algumas aplicações da terapia EMDR.

Algumas situações nas quais EMDR mostra resultado positivo:

Abaixo, podemos ver algumas aplicações clínicas do EMDR. Ao lado da condição consta a referência de um artigo científico, apenas como exemplo, que poderá ser consultado para conferir os resultados positivos em cada caso.

Transtorno de Estresse Pós-Traumático – Wilson, G., Farrell, D., Barron, I., Hutchins, J., Whybrow, D., & Kiernan, M. D. (2018).

Transtorno de Estresse Pós-Traumático em pessoas com transtorno de personalidade – Slotema, C. W., van den Berg, D., Driessen, A., Wilhelmus, B., & Franken, I. (2019).

Transtorno obsessivo-compulsivo (TOC) – Marsden (2016)

Transtorno de ansiedade generalizada – Gauvreau & Stéphane Bouchard (2008)

Suporte durante o luto – Cotter, P., Meysner, L., & Lee, C. W. (2017).

Tratamento para pessoas que vítimas de abuso sexual – Edmond et al. (1999)

Suporte psicológico em desastres naturais ou humanos – Silver, S. M., Rogers, S., Knipe, J., & Colelli, G. (2005)

Problemas sexuais masculinos – Pinder (2018)

Uso abusivo de substância – Carletto, S., Oliva, F., Barnato, M., Antonelli, T., Cardia, A., Mazzaferro, P., Pagani, M. (2018)

Ansiedade em apresentações – Barker & Barker (2007)

Controle da dor crônica – Grant & Threlfo (2002)

Depressão – Gauhar (2016)

Quem pode oferecer a terapia EMDR?

No Brasil, psicólogos e médicos podem realizar a formação, seguindo o modelo defendido pela fundadora Francine Shapiro, que habilita para oferecer a terapia EMDR.

Palavras finais

Nossa memórias nos constituem. Pense quem seríamos hoje se não lembrássemos do que fomos? Alguns registros de memória, no entanto, devido à forma que foram armazenadas e como hoje as sentimos e relembramos, podem prejudicar nossa vida presente. Lidar com essas memórias em terapia é um ato de coragem e de disposição para a mudança.

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Marcos Roberto Alves de Carvalho
Sexólogo | Psicólogo (CRP 08 – 19155)

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